segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Carta ao Parlamento: ou Por Lamento!



O que faz o Congresso decidir por votar um aumento em benefício de seus parlamentares em um momento de anunciada crise pela qual pagarão todos os brasileiros que não terão o inflacionado aumento em seus salários?

O que faz os congressistas legislarem em causa própria antes de votarem causas muito mais importantes para TODOS os cidadãos?

O que faz os nossos representantes se julgarem como sendo mais importantes do que outras profissionais que não têm aumento sequer que recomponha a inflação e que, descontados os impostos, são obrigados a pagar pela educação, saúde e segurança privada porque o Estado não gerencia e nossos representantes não cumprem o seu papel de fiscalizar, tampouco o judiciário de punir como devia e dá brechas para a corrupção enquanto os nossos representantes defendem os interesses de governo e de partidos e não os de quem os colocou aí?

O que faz esse grupo usar de privilégios, quando a grande massa sequer pode gozar de direitos?

Professores, dentre outros profissionais, trabalham tanto quanto os Senhores, formam a sociedade, pagam impostos, contribuem cotidianamente para o crescimento do Brasil e recebem míseros adicionais, somente depois de comprovarem por relatórios de produtividade e muito tempo de estudo. Esses profissionais como outras categorias, que não podem escolher seus próprios salários, precisam pagar as contas e sobreviver com 60% do que lhes chega, pois não têm, como os Senhores, nenhuma ajuda de custo. É legal porque os Senhores fazem as leis, mas é imoral essa diferença e esse descaso com o povo que é obrigado a concordar com um grupo que vota de acordo com os interesses pessoais e partidários e que não representa o interesse da maioria. Um país justo é um país sem desigualdade, onde os legisladores dão exemplo de moralidade e de sensatez no uso do que é público, onde a justiça é para TODOS e não privilégio de quem já tem muito e se vê no "direito" de ter mais. Não é à toa que quanto mais ric o é o legislativo, mais pobre é o povo. Quanto mais ricas são as famílias dos representantes do povo, mais pobre é o Estado da Federação. Eu faço a minha parte pagando meus impostos (sem sonegar, não porque sou obrigada, mas porque sei de minha responsabilidade) e desempenhando minha profissão com ética e compromisso, e sei que esse desabafo é tão inócuo quanto os discursos e pseudos defesas de pequenos grupos na CD ou no CN. 

Sim, eu acompanho diariamente as sessões pelo rádio! E torço por um destino diferente para o meu país, contudo, estou certa de que só se colhe o que se planta e tanto os filhos do povo, quanto os filhos dos privilegiados legisladores colhem a violência e os demais resultados dos desajustes sociais plantados pelos nossos representantes. 
Essa lei não precisa ser voltada pelos Senhores, nem sancionada pela Presidenta, em um acordo de interesses partidários. 

Ela é inexorável! Portanto, Senhores, representantes de uma minoria, lembrem-se de que não estão livres da colheita, porque essa é uma lei da Humanidade, e para ela não há sequer a imunidade parlamentar que garanta o livramento das consequências das escolhas pelos privilégios de poucos em lugar dos direitos de todos. Lamentavelmente, os Senhores escolheram neste Natal se presentearem em vez de mostrar aos seus eleitores que eles mereciam como presente mais respeito e consideração! Se possível, em seus discursos, evitem falar em democracia, porque essa palavra já perdeu o sentido. Sugiro que a usem apenas quando se referirem a países onde merecem a mesma dignidade que os Senhores chamam a si!

Nomes de lugares que viraram coisas e outras coisas mais. (I)




Ormezinda Maria Ribeiro- Aya é Doutora em Lingüística e Língua Portuguesa pela Unesp.
aya_ribeiro@yahoo.com.br



Sempre gostei de ler e de brincar com as palavras e confesso que não há nada que me encanta mais do que mergulhar nessa sopa de letras, nesse universo mágico de símbolos que se transformam em signos e vão mudando seus sentidos como já disse Nietzsche, num movimento de escavação ad infinitum. Isso mesmo, em itálico, esse realce foi feito originalmente em uma obra de do poeta Virgílio, por um italiano chamado Aldo Manutius em homenagem a sua pátria. Descobrir por que nomes de lugares viram coisas ou o que leva os nomes próprios a perderem sua identidade inicial para se tornarem comuns sempre me fascinou. Se prestarmos mais atenção às palavras que proferimos dia-a-dia, certamente faremos uma viagem diferente e conheceremos lugares inimagináveis. Já era balzaquiana quando descobri o quanto Honoré de Balzac, na França, fez um bem enorme às mulheres de 30, quando exaltou a feminilidade das mulheres maduras. Foi exatamente nesse momento de minha vida que percebi que a água-de-colônia era muito mais do que um perfume, feito por um monge na cidade de Colônia na Alemanha, mas uma água milagrosa que revigora qualquer alma feminina. Mesmo aquelas que levam uma vida espartana. Na Grécia, em Esparta, ou em qualquer outra cidade do mundo. Há coisas além do perfume, que mulheres, de todas as idades, de todos os lugares, não dispensam, biquíni e champagne, por exemplo. A criação ousada do estilista francês Louis Réard, tão explosiva quanto os testes nucleares nas ilhas de Bikini, hoje é tão comum quanto a bermuda, peça alternativa para as pobres mulheres proibidas de freqüentarem com as pernas expostas um balneário no Arquipélago de Bermudas, no Caribe, na década de 30. Claro que se desobedecessem estariam na berlinda por muito tempo, mesmo que nunca tivessem ido a Berlim, na Alemanha, lugar onde se usavam berlines para que os nobres circulassem e fossem vistos pelo povo, em carruagens com vidros nas laterais. Imaginem, então, o que seria dessas mulheres se ousassem tomar o borbulhante vinho feito pelo monge Don Perignon na região de Champagne no nordeste da França! Isso era coisa para Boêmios, outrora os ciganos da Boêmia, chegados a noitadas e bebedeiras. A Bíblia, coleção de livros sagrados escritos em papiros importados de Byblos, uma antiga cidade fenícia, hoje Gebal, na Síria, recomenda que mulheres não devem se embriagar com o produto da videira. Sendo assim, não devem tomar Xerez, vinho feito pelos espanhóis de Jerez, ou Sherry, para os ingleses que importam essa bebida desde o século XI, quando os árabes, depois de invadirem a península ibérica, mudaram o nome de Jerez para Sheriz. Mesmo não sendo fruto da vide, creio que também não é recomendável tomar a destilada Steinhager, bebida popular, fabricada com frutinhas de zimbro esmagadas com grãos de trigo, na aldeia de Steinhagen, na Alemanha. Mas às mulheres cristãs uma coisa não é proibida, é, ao contrário, estimulada: fazer romaria. Aquela excursão de fiéis, que inicialmente se dirigia a Roma, sede da Igreja Católica, e hoje são peregrinações a qualquer lugar que seja objeto de devoção. E olhe que essas viagens não precisam necessariamente ser feitas a pé, podem ser até de transatlântico. Mesmo que o destino esteja além de qualquer oceano que não seja o Atlântico, oceano cruzado pela primeira grande embarcação que saiu de Savannah, na Geórgia, EUA, com destino a Liverpool, na Inglaterra. Mas, acreditem, isso não foi nenhuma maratona. Maratona mesmo foi o que fez o valente soldado grego Fidípedes, ao percorrer os 42, 195 km que separavam Atenas da cidade de Maratona para anunciar a Nike dos gregos sobres os persas. Não entendeu patavina? Explico: não é nenhuma poderosa marca de tênis feita para os mais fenomenais atletas. É vitória em grego. E patavina fica mais próxima do mediterrâneo, na Itália, em Pádua, cujo nome em latim é Patavium. Como os portugueses dificilmente entendiam o latim falado pelos mercadores de Pádua, diziam que não entendiam nada, ou não entendiam patavina. Fico pensando que talvez seja por isso que os gregos, mais precisamente os espartanos, que ocupavam a Lacônia, ao sul da Grécia, preferissem falar pouco, ou laconicamente. Falar grego, para nós brasileiros, também é sinal de não ser entendido não é mesmo? Agora, peço licença, não vou sair à francesa, pois devo demorar alguns dias para voltar. Não vou à França como desejaria, para tomar um café com Chantilly, de preferência no castelo com esse nome. Creio que depois dessa viagem inusitada, no reino insólito dos sentidos das palavras, mereço relaxar em um SPA. Quem me dera fosse na Bélgica, nessa cidade cheia de fontes com águas medicinais, hoje até pode ser em qualquer lugar, antes que eu vá pra cucuia, o indesejado Cemitério da Cacuia, bem mais perto, logo aliiiiii, no Rio de Janeiro.


 rtigo publicado no Jornal de Uberaba, Coluna Opinião em 25-07-2007.

Nomes de lugares que viraram coisas e outras coisas mais (II)







Ormezinda Maria Ribeiro- Aya é Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Unesp.
aya_ribeiro@yahoo.com.br



Estou de volta, tive meu merecido descanso. Viajei bastante, não no sentido denotativo da palavra, mas viajei à minha moda: lendo muito e assistindo a vários filmes. Nem precisei de um sedã, um tipo de automóvel, criando na antiga vila francesa com esse nome. Para curtir a meca dos cinéfilos, não é necessário uma peregrinação à Meca, a cidade natal do profeta Maomé. O ponto de convergência de quem curte filmes ainda é Hollywood, a meca do cinema. Assim como Milão é a meca da moda. Mas posso assistir aos clássicos hoje sem sair de casa. É só ligar para a locadora e fazer a lista. Haverá sempre alguém de moto ou de lambreta para trazer em minha casa o passaporte para minha viagem favorita. Depois dos livros, é claro! Pode parecer jurássico aos mais jovens falar em lambreta, mas é que, ao falar em Milão, veio à minha mente Lambrate, um distrito dessa cidade, onde a família Innocenti fabricava as pequenas motocicletas que adotaram o nome da cidade com o diminutivo etta. E por falar em diminutivo, “As viagens de Gulliver” me levaram a Lilipute, a ilha imaginária criada pelo escritor inglês, Jonathan Swift, para ambientar seu livro. Ali, tudo era diminuto, os habitantes mediam apenas 15 centímetros. Quando essa malta que insiste em me diminuir atribuindo a mim e as coisas que faço o adjetivo liliputiano, ao contrário do que pensam, fico lisonjeada. Vou fundo na etimologia e me defendo: Lilipute é terra nobre, diferente de Malta, ilha do Mediterrâneo que depois de ser invadida por bárbaros, foi freqüentada durante muito tempo por piratas, passando a ser vista por outras nações como terra de grupos criminosos. Se liliputiano é adjetivo para gente pequena, certamente não tem nada a ver com malta, gente má, de baixa índole, que vive de usurpar bens e direitos alheios. Às vezes, armados de baioneta, arma criada por contrabandistas franceses, em luta contra os espanhóis, próximo à cidade de Baiona. E, muitas vezes, sem armas, como beócios. Usando a ignorância como arma letal, a exemplo dos agricultores de Beócia, lugar da Grécia onde ninguém sabia ler, apesar de estarem no berço da cultura e da filosofia. E isso, quero registrar, nada tem a ver com o mongolismo, como muita gente beócia ainda insiste em acreditar. Esses despreparados relacionam a Síndrome de Down devido à aparência semelhante aos dos habitantes da Mongólia, país asiático liderado pelo guerreiro Gengis Khan. Na verdade, quando pensam estar depreciando os portadores da síndrome, estão é fazendo um elogio: mongol significa, na língua de Gengis Khan, “valente, bravo, ou invencível”. O que de fato são essas pessoas, criadas em meio à discriminação e educadas em meio ao despreparo da sociedade e de muitas escolas. São exemplos de luta e de valentia para fugir do estigma e mostrar que é normal ser diferente e de que o slogan “educação para todos” não pode ser frase de efeito apenas para inglês ver.


A propósito, jurássico refere-se aos primeiros fósseis de dinossauros que habitaram a Terra na era mesozóica, descobertos pelos arqueólogos em 1829, na cadeia de montanhas Jura, que divide a Suíça e a França.

 Artigo publicado no Jornal de Uberaba, Coluna Opinião em 23-02-2007.



Confusão no Gramado!


Ormezinda Maria Ribeiro- Aya é Doutora em Lingüística e Língua Portuguesa pela Unesp. aya_ribeiro@yahoo.com.br

Para quem pensa que pode ir a Portugal assistir ao esporte mais globalizado sem um tradutor disponível, um aviso: para não ficar gago na terra de nossos primeiros colonizadores, é melhor fazer um “intensivão” antes do embarque. Mas, se o tempo está curto e o passaporte já foi liberado, eis a tradução de Conflicto no Relvado:

O amistoso só não seria transmitido ao vivo para Lisboa e Porto. Arquibancadas cheias. Recorde de bilheteria. Estádio lotado, aguardando a chegada dos times do local de concentração. Os técnicos anunciam as convocações, enquanto os times saem do vestiário. Festa da torcida do Benfica. Delírio da torcida do Porto. Começa o amistoso. O volante da equipe rubra marca bobeira e não alcança o atacante. Na seqüência, o jogador fundamental do Benfica rola a bola. Passa a bola entre as pernas do adversário. Os torcedores enlouquecem e o estádio quase vem abaixo. Que bárbaro! Ah! Se fosse semifinal das eliminatórias! Ninguém seguraria esse time! Naquele instante, o volante do Porto está parado ajustando as meias. O zagueiro, na ânsia de evitar o ataque adversário, chuta a bola, vindo em correria em direção ao gol. Por pouco não faz gol contra. É escanteio. Os torcedores se levantam das arquibancadas. O ponta esquerda bate, mas não acerta nada. Resta ao goleiro cobrar o tiro de meta. Naquele instante, num chute de voleio, o camisa 10 dá um chapéu e acerta o adversário, um zagueiro nanico. Recebe um cartão. Imediatamente são ouvidas as vaias da torcida. Quem pensou que seria jogo fácil se equivocou. Não é nem um pouco. A arquibancada da torcida rubra grita em delírio. Novamente o atacante rouba a bola por entre as pernas do volante do time de azul, põe em desacordo os canhotinhas e, numa cabeçada espetacular, cruza o travessão. Sem chances para o goleiro do Porto. Das arquibancadas lotadas vinha o grito de gol. De repente, tristeza total: o bandeirinha não valida o gol. Marca o impedimento do camisa 7. Na súmula faz constar apenas tiro de meta. De imediato são ouvidas as vaias da torcida. Encrenca a vista. É o bastante para o camisa 10 do time vermelho se irritar, chamar o árbitro de covarde e cuspir de lado. Afronta registrada. Outro cartão e estava fora do gramado. Cumpriria, por isso, jogo de suspensão. Não poderia ser escalado para a partida de desempate. É o clímax. Começa a confusão nas arquibancadas. A desordem está armada. O riso alegre dos rapazes, das moças e dos garotos, que matavam aula para assistir ao jogo, rapidamente acaba. As beatas respeitáveis se aborrecem com a confusão, alegando falta de fé. Chamar aquilo de confusão era elogio! Muitos torcedores foram parar na delegacia. Principalmente a turma de vermelho. Não encontrando outra saída, apita o árbitro. Fim do amistoso. Que não foi lá tão amistoso assim! Quem perdeu essa partida ainda pode recorrer ao vídeo-tape. Depois disso, só nos resta assistir do sofá à transmissão da entrevista, pelo canal RTP, no intervalo da novela “A Escrava Izaura”, sucesso de audiência no Brasil e em Portugal da adaptação para a TV da obra do grande escritor mineiro, estudante em Uberaba, o célebre Bernardo Guimarães.


Conflicto no Relvado!






Ormezinda Maria Ribeiro- Aya é Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Unesp. aya_ribeiro@yahoo.com.br

O particular só não seria transmitido en directo para Lisboa e Porto. Bancadas compostas. Recorde de bilheteira. Sítio lotado, a aguardar a saída da equipa do local de reclusão. Os seleccionadores anunciam as convocatórias, enquanto as equipas saem do balneário. Festa encarnada. Delírio celeste. Começa o amigado. O distribuidor do seleccionado encarnado dá uma fífia e não alcança o avançado. Na seqüência, o elemento nuclear do Benfica rola o esférico. Que grande cueca! Os adeptos ensandecem. O sítio quase vem a baixo. Que bestial! Ah! Se fosse na meia final do puramento! Ninguém seguraria essa equipa! Entretanto, o distribuidor do Porto está inerte a ajustar as peúgas. O defesa, no afã de deslocar o ataque, chuta o esférico, vindo em ula, ula, em direção ao golo. Por pouco não atira contra. É pontapé de canto. A massa adepta se levanta das bancadas. O esquerdinha bate, mas não acerta nigues. Só resta ao guarda-redes cobrar o pontapé de baliza. Entretanto, num remate à meia volta, o camisola 10 do Benfica faz uma cabrita e acerta o adversário, um defesa cambuta. Recebe uma admoestação com a cartolina. Quem pensou que seria pêra doce cometeu uma equivocação. Não está nenhuma bojarda. A bancada da claque encarnada grita em delírio. Novamente o avançado rouba o esférico por entre as pernaças do distribuidor da equipa celeste, põe em dissensão os esquerdinhas e, num cabeceamento espetacular, cruza a barra de baliza. Sem chances para o guarda-redes do Porto. Das bancadas compostas vinha o grito de golo. De súbito, tristura absoluta. A claque da equipa encarnada emudece: o fiscal de linha interdita o golo. Marca o fora-de-jogo do camisola 7. Na súmula faz constar apenas pontapé de baliza. De pronto ouve-se a assobiadela da claque. Sarrilhos a vista. É o bastante para o camisola 10 da equipa encarnada se irritar, chamar o arbitrador de cagarola e expurtar de lado. Agravo registrado. Outra admoestação com cartolina e estava fora do relvado. Cumpriria, por isso, desafio de castigo. Não estaria mais habilitado a disputar uma negra. É a  zina. Começa o barulheiro nas bancadas. A zaragata estava armada. O riso gaio dos mancebos, das raparigas e dos putos, que gaseavam para assistir ao torneio, arrebatadamente se dissipa. As beguinas circunspectas arrenegam o combate a alegar fedifrago. Chamar aquilo de conflicto era gabo! Muitos adeptos vão parar na esquadra de polícia, especialmente a malta encarnada. Sem encontrar outra saída, apita o arbitrador. Fim do amigado. Que não foi lá tão amigado assim! Ora pois! Quem perdeu essa partida ainda pode recorrer ao en diferido. Depois disso, só nos resta assistir do maples à transmissão da conferência de impressa, na estação RTP, no intervalo do folhetim em antena:“A Escrava Izaura, sucesso de audiência no Brasil e em Portugal da adaptação para a TV da obra do grande escritor mineiro, estudante em Uberaba, o célebre Bernardo Guimarães.


Para quem pensa que pode ir a Portugal assistir ao esporte mais globalizado sem um traduzidor disponível, uma advertência: para não ficar tartamudo na terra de nossos primeiros colonizadores, é melhor fazer um “intensivão” antes do embarque. Mas se o tempo está curto e a licença por escrito já foi liberada, aguarde a tradução na próxima edição desta coluna.

Artigo publicado no Caderno "I", Coluna " Opinião" , Edição de n• 6065 do Jornal de Uberaba, p. 02, em 12-12-06.



Português de estrada


Ormezinda Maria Ribeiro- Aya é Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Unesp. aya_ribeiro@yahoo.com.br

Ele era Jacinto Leite Aquino Rego. Caminhoneiro. Vendedor ambulante. Solteiro. Vinha de Jurupita do Oeste, terra onde abunda a pita Estava de olho na rica viúva Maria Joaquina Rua dos Santos Gomes de Sá. Ela gostava de ser chamada pelos empregados por Sá Quinha. Pelos mais íntimos preferia ser tratada apenas por Quinha. Os desafetos criticavam, diziam que ela tinha um nome estranho. Ao que ela retrucava "Não penso nunca nisso". Já que tinha resolvido, seria essa sua alcunha. O falecido marido punha a culpa nela: “Você tinha que prestar mais atenção. Os filhos seriam criticados na escola. Ou se esqueceu que não é mais sozinha? Faz escolhas e os outros ficam como herdeiro". “Claro que não”, retrucava- “nunca minha mãe me disse isso”. O marido morreu pouco tempo depois. Há anos atrás. Sá Quinha ficou só. Os filhos, Cafu e Neneca, já estavam criados e não se importariam com esse apelido. Mas difícil mesmo era educar esses garotos. Era preciso ter fé demais! Era chegar em casa e ela tinha mil pias cheias de louças para lavar. Não ficava nem o aparelho de socar alho a salvo das mãos dessas crianças crescidas. E a coitada pouco tempo tinha. Dia desses, entrou em seu quarto e o que viu: uma caca enorme em cima da cama. “Oh! Não!” Exclamou! “Felizes deviam ser Eva e Adão quando não tinham filhos”. “E nem caminhão”, explodia Aquino Rego! “Eu amo ela” dizia a toda vizinhança, mas ela parecia não se importar. Sua vida não era fácil. Um dos filhos era míope, olho torto. Não conseguia ver direito o Bloco “H”, bem ali na sua frente. “‘Alma minha’, por que não comprei óculos fundo de garrafa para esse garoto?” Dizia consigo mesma: “ele iria parecer um sapo, tá certo, mas não faria tanta confusão”. Outro dia Sá Quinha me convidou a sua casa e me confidenciou suas dificuldades com as levadezas dos meninos. “Minha cara Elisa, na ótica minha, esses meninos estão carentes e precisam de atenção”, me dizia preocupada. Mas na prática dela, por razões que eu não compreendo, faltava a aceitação do que é ser criança.  Quando entrei na cozinha, topei dando, com a vara de tocar gado, o Cafu, no alto do armário, para alcançar uma bola. Neneca pediu a bola e Cafu deu. Essa doeu! Caiu em sua cabeça e rolou pela dama da noite. Chuta Neneca. Pediu Cafu. “Chuta Neneca, gol”. A bola cai na moita e por cada flor derriçada que no cume cheira, Neneca ia levar uma surra da Sá Quinha. Ele iria apanhar com a boneca dela, mas o “M.J. Gonzaga de Sá", primo de sua mãe, o salvou da bordoada. Rolando Caio da Rocha, dono da plantação, que nunca gostou desses pestinhas, muito aborrecido, ordenou a seu capanga Celso Pita que desse uma sova cada vez que visse o garoto rondando a casa dele: “Dê cá Pita. É agora ou nunca garoto levado!”. E isso via o paraninfo dela, Armando Nascimento de Jesus. “Só Pita pode conter essa molecada”- suspirava aliviada Sá Quinha”.  Estava armada a confusão: Um triângulo amoroso entre Celso Pita, Aquino Rego e Sá Quinha. “Cheguei há pouco de fora, mas vi ela primeiro e já peguei amá-la”. Por que não posso amar ela? Quero amá-la, dizia o caminhoneiro com seu português de estrada. “Não toca nela”. Gritava Pita, mostrando uma mão, num gesto brusco, que exaltava o físico dele. Tome já! Ele não se safa não! Venha cá, gatona! Vou-me já daqui contigo” “Ele está louco de ciúmes” esbravejava Jacinto Leite. Foi o bastante para Sá Quinha perder a paciência e despachar os dois. Sá Quinha não era mulher que se disputa. Isso não! Não uma mulher como ela!  A história com esses dois já havia dado o que falar na cidade. Naquele tempo tinha muita mulher fofoqueira. “Não volte nunca aqui”. Gritou. Triste, desiludido, sem outra opção, Jacinto Leite,  com a sensação de quem nunca ganha,  entra em seu caminhão e volta a dirigir pelas ruas da pequena cidade, bradando em seu alto falante: “Ovo e uva boa! Só caqui a preço de custo...O resto em promoção: Palha, aço... Aquino Rego a sua disposição... “Ovo e uva boa!”



O cacófato é um jogo criativo com a linguagem, pode parecer descontraído, quando aparece nas brincadeiras verbais do colégio e nas piadas sutis dos grandes humoristas. Com o propósito de provocar o humor, o que poderia ser um defeito converte-se em uma virtude, mas deve ser evitado em situações mais formais, principalmente em texto escrito.
A intenção desta colunista foi brincar com os nossos descuidos verbais. Esse texto não passa disso...



Publicado no Jornal de Uberaba em 13-01-2007.

Afinal, que língua falamos?

Ormezinda Maria Ribeiro-Aya é Doutora em Lingüística e Língua Portuguesa pela Unesp.

À propósito da reflexão que pertinentemente trouxe à tona o jornalista César Vanucci, em 08 de setembro, sob o título “Tolices emergentes”, peço licença para continuar nesse tema, tomando emprestado ao genial poeta português, Fernando Pessoa, o título da série temática que pretendo desenvolver nesta coluna, apresentando curiosidades linguísticas.

A língua é fator de unidade nacional. Por que utilizar termos de outras línguas, que nem sequer dominamos, em vez da nossa?
A cada dia nos deparamos com expressões que não são próprias de nossa língua materna e as reproduzimos tão naturalmente que inconscientemente pensamos “estar falando” Português.

A língua é um patrimônio cultural e como tal devemos preservá-la. Sem exageros puristas, precisamos cuidar dela, cultivá-la, admirá-la.
“Nosso léxico” contém um número infindável de palavras e expressões em outros idiomas que propagamos em casa, no trabalho, no clube, enfim, em qualquer situação de interação comunicativa.

Falamos ou repetimos expressões cujos significados originais desconhecemos e não nos preocupamos em observar se há na língua vernácula um vocábulo equivalente e com isso cooperamos para a americanização dos termos.
Sem autocrítica, curvamo-nos diante dos E.U.A, falamos, ou melhor repetimos a convenção deles. Transformamo-nos, assim, em reprodutores de um idioma artificial, que não é Inglês, nem tampouco Português.

Na moda, na culinária, na economia, na publicidade, no esporte, como na música, ocorre o mesmo. Não empregamos os nossos próprios vocábulos, contentamo-nos em adotar, assimilar e repetir os deles.

Será que os usuários de uma língua tão rica como a nossa, não encontram condições semânticas para substituírem um termo estrangeiro por um nacional, sem crise de xenofobia ou exarcebação de ufanismo nacionalista, mas numa reverência à língua materna?

Falta-nos senso crítico suficiente para sabermos até onde vai a impossibilidade de tradução e onde começa a aceitação passiva da cultura estrangeira.
Um leitor crítico, observa, analisa e interpreta sem aceitar passivamente os termos e, consequentemente, as idéias que lhes são impostas por meio deles.
O assenhoramento da estrutura de uma língua associado à capacidade de discernir, discriminar e estabelecer relações lógicas no comando da língua falada, ou escrita, assegura que as palavras não veiculem apenas idéias ou sentimentos, mas reflitam também a própria atitude mental.

Muitas vezes, o uso exagerado e deliberado de termos em outros idiomas serve apenas ao propósito de confundir, de não explicar, sob a falsa impressão de estar se expressando de uma forma culta. Vemos isso constantemente em economia. Soa como uma falsa erudição, entre pretensos intelectuais, ou com uma pseudo aparência chique, nas colunas sociais, quando na verdade beira ao mau gosto travestido de elegante.
A consciência do uso da língua é a consciência da cidadania. Quanto mais idiomas conhecermos, melhor será o nosso desempenho, o nosso alcance cultural. Podemos ser poliglotas sim, mas não em nossa própria língua.

O conhecimento não é beneficiado de forma alguma por essa mesclagem duvidosa. Constatamos que alguns usuários da língua não sabem fundamentalmente o que dizem: só fazem repetir sem reflexão, sem questionamento, simplesmente aceitam passivamente o que repetem.

A língua é um campo potencialmente infinito de descobertas de generalizações gramaticais, de criações semânticas, de possibilidades de renovação e ampliação do léxico, que se constrói a cada instante, uma vez que é um fato social. Em razão disso, proporciona uma probabilidade indefinida de construções frasais, portanto, não necessitamos simplesmente importar e adotar os termos de outros.
Já dizia Maurizzio Gnerre, “uma língua vale o que valem seus falantes”. Pensemos nisso.

Publicado originalmente em: RIBEIRO, Ormezinda Maria. Minha Pátria é minha língua I: Afinal, que língua falamos? In: Jornal Cidade Livre. Uberaba. Ano III, nº 1160, 14-09-2006, p. 02.