segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Palavras demodês: a língua da saudade

Não há plástica que evite os efeitos do verbo “Envelhecer”, quando muito é possível apenas maquiar ou aplicar um “Botox” na língua. Não no músculo, bem entendido. O sentido aqui é figurado, senão o efeito colateral é justamente o que não se quer. Ao contrário do esperado na dermatologia, paralisar o músculo, nesse caso, não ajudará na linguagem. Esse efeito só seria bem vindo no caso de se evitar as mentiras e as promessas vãs que são proferidas por tantos cidadãos levianos. “Botox” neles!

A língua é um organismo vivo e como tal também se modifica. Como seus usuários, envelhece, e, apesar de ter uma vida mais longa, também morre. Algumas palavras ficam, outras se modificam e outras desaparecem, permanecendo apenas na memória de quem as proferiu ou as ouviu em algum lugar do passado. Era adolescente, recém saída do primário, quis fazer admissão para cursar o ginásio no “Dom Lustosa”, só para ficar de olho nos rapazes prafrentex do científico, porque minha vontade mesmo era ser normalista, na “Escola Normal”, para usar o uniforme de gala, com gola marinheiro, meia 3/4 e saia plissada, dois dedos abaixo do joelho, e fazer curso de datilografia, na escola do Benedito, para, um dia, ser escritora.

Paramentada com meu trancilim de ouro, calça cocota e colant rosa choque, ou mesmo com um slack ou boca de sino, e calçando uma melissinha transparente, não perdia as sessões de quarta feira no Cine Patrocínio. Naquela época não havia linha de ônibus do bairro à praça. Alguns rapazes possuíam Lambreta, e as meninas de família mais abastada tinham Gareli, ou Monareta. Alguns boyzinhos tinham um Maverick, equipado com toca-fitas TKR cara preta, tala-larga e rodas de magnésio, ou pegavam dos pais um Kharman-Guia, ou um possante Aero Willis preto, ou mesmo uma Variant azul calcinha.

Muitos deles iam às brincadeiras dançantes de Rural ou de Veraneio laranja. As mais dondocas, para impressionar, usavam um Carro de Praça, geralmente um Simca Chambord verde limão, cujo câmbio tinha bolinha de plástico com siri dentro, ou um Vemaguete cor de hepatite, ou mesmo um Gordini amarelo gema, com taxímetro Capelinha. Às mais pobres não restava alternativa a não ser pegar carona na jardineira que fazia as linhas das roças, ou enfrentar o caminho a pé. Isso não era nenhum problema, porque sempre íamos com uma turma animada.

As meninas, depois de fazerem seus Mis-an-plies com bobs presos com ramonas e passarem o dia todo com uma touca feita de meia-calça, aquelas usadas com cinta-liga, tomavam banho com sabão de cheiro Eucalol ou Lifeboy, escovavam os dentes com dentifrício, passavam diadermina nas mãos, vestiam sua cacharrel, que era o último grito da moda, junto com o corte pigmaleão, penduravam sua tiracolo de couro e se enfeitavam com pó de arroz Cashemere Bouquet, rouge e carmim. Se usassem vestido, a combinação era obrigatória, mas a recomendação era de que não poderia aparecer por debaixo da saia. “Vender farinha” era a maior mancada. Indigna de uma moça de família.

Ainda bem que nessa época o espartilho já havia sido abolido. Os rapazes, como ainda hoje, tinham sua vida facilitada. Usavam apenas Creme Rinse para lavar a cabeleira e aplicavam Brilhantina para segurar seus topetes. Alguns preferiam Gumex. Cortavam as unhas com Trim e vestiam camiseta branca Hang-Ten, quarada no quintal, e calça “Lee” ou “Uestop”, presa no currião. No ombro, japona de napa preta. Limpavam o ki-chute com um pedaço de fazenda de javanesa, aplicavam graxa Nugett ou alvaiade na conga. Depois do cinema sempre rolava uma passadinha na casa de alguém da turma para ouvir o último disco do Yahoo, Metrô e RádioTáxi. O LP com a música Voyage, Voyage quase furava na radiola Sonata, no quarto da irmã mais velha, ou na vitrola da mãe, sobre o tager da sala de jantar.

Em geral, os pais não se importavam de receber os colegas, em suas casas, com o piso espelhado encerado com Parquetina, ou Colmeína. Às vezes, serviam um moscatel aos rapazes, e, para agradar às meninas, as mães se ofereciam para ir à fornalha coar, no coador de pano, um café fresquinho feito com água da talha, fervida na rabinha de ágata, e servido na chávena de porcelana, ou na tigela esmaltada. Aos domingos o Grapett, Kresto, Tubaína, Guaraná Caçulinha e Crush eram servidos nos coloridos “cristais cica”, acompanhando o bolo Marta Rocha. O que não aceitavam, de jeito nenhum, é que a “cambada” se sentasse no catre. Isso era desrespeitoso por demais. Não era só porque amarrotava o virol, mas, segundo eles, não era aconselhável colocar o traseiro sujo de micróbios no lugar onde se dorme.

As mães, geralmente, abriam as portas com seus robes de tergal, usando peruca ou turbante, calçando suas confortáveis precatas, ou Alpargatas e quase sempre já sem o seu roth, que ficava na cabeceira da cama, dentro de um copo com água. Debaixo, jazia um urionol, ou penico já que nem todas as residências eram projetadas com mictório, ou latrina com bidê, dentro de casa. Os pais, quando não estavam com suas ceroulas que iam até as canelas, quase sempre usavam Camisas Volta ao Mundo, muito brancas, lavadas com sabão em pó Rinso. O que a turma gostava mesmo, além de assistir os filmes do Jeca Tatu, era de fazer serenata ao som do violão.

Como havia artistas e poetas no meio dessa moçada! Eu ficava só no coro. Depois de virar a noite, o dia seguinte exigia Simbasol ou Cibalena, principalmente se um mais espertinho se atrevia a ingerir Cuba Libre feita com Ron Merino. Biotômico Fontoura e Emulsão de Scott, com certeza, eram os anabolizantes da época, tanto para os meninos, como para as meninas, e o Elixir Paregórico e de Camomila Granjo, Pílulas Ross, Rhum Creosotado, Pronto Alívio Radway, Nenê-Dent, Oleo Glostora e Regulador Xavier nunca faltavam na caixinha do bifê da copa das casas que freqüentávamos. Além da pomada Minâncora, muito usada para tratar as indesejáveis espinhas adolescentes.

Merendar antes do recreio não era ingerir o conteúdo da merendeira, antes do intervalo no Grupo Escolar, era avançar o sinal antes do casamento e aí não havia muita escolha: era rezar um rosário, pois um terço não adiantaria. Se não funcionasse, se a regra faltasse, e o Modess perdesse a utilidade, o jeito era encomendar o enxoval, com direito à colcha de chenile e uma boneca dorminhoca para guardar a camisola do dia e chamar o meirinho pra fazer o casório antes da noiva adoecer ou do pai chegar o rei no infeliz do boyzinho que, depois de tirar a moça, ainda se atrevia a não reparar a sua honra.

As chapas batidas pelo Augustinho retratista, pai de um de nossos companheiros de serestas, nas visitas da turma ao campo de aviação da nossa cidade da juventude, hoje, certamente são retratos, fotografias postadas, em algum fotolog de um jornalista curioso, para alimentar o saudosismo dos conterrâneos distantes.

Publicado no Jornal Mais Um, em 28/11/2006.


Ormezinda Maria Ribeiro-Aya é Doutora em Lingüística e Língua Portuguesa pela Unesp.
aya_ribeiro@yahoo.com.br

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